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Activistas detidos numa casa em Luanda

Activistas reunidos no sábado numa residência em Vila Alice, um bairro central de Luanda, foram surpreendidos por elementos da Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) e detidos sem mandado de captura.

Algemados, foram conduzidos às suas casas, em diferentes bairros, onde as buscas realizadas resultaram na apreensão de diverso material profissional, segundo um comunicado do Grupo de Apoio aos Presos Políticos (GAPPA).
Serão pelo menos 13 pessoas detidas, das quais 12 confirmadas pelo GAPPA. Dessas 12, três foram localizadas na 29ª esquadra, adjunta à DNIC, e continuam detidos nesta segunda-feira. A DNIC não informou onde se encontram os restantes detidos, diz ainda o comunicado do grupo que percorreu, neste domingo, várias esquadras de Luanda.
De acordo com os Serviços de Investigação Criminal do Ministério do Interior, numa nota transmitida pela Televisão Pública de Angola (TPA) e a Rádio Nacional de Angola (RNA), os activistas foram detidos “em flagrante delito” quando “se preparavam para realizar actos tendentes a alterar a ordem e segurança pública do país”.
Entre os 12 detidos confirmados pelo GAPPA estão Luaty Beirão, conhecido no meio artístico como Ikonoklasta, Manuel Nito Alves, activista que várias vezes esteve preso por pertencer ao Movimento Revolucionário Angolano e adoptou o nome de um dos líderes (Nito Alves) da contestação ao anterior Presidente Agostinho Neto, brutalmente reprimida em 1977, e ainda Nuno Dala, professor da Universidade Católica de Angola.
Dos três, o rapper Luaty Beirão será o mais conhecido fora de Angola. Em 2013 afirmou numa entrevista, seis meses depois das eleições de Agosto de 2012: “A mudança é irreversível e não depende nem das eleições, nem dos regimes fraudulentos que deles emanam.”
O grupo de 12 detidos é essencialmente composto por activistas pouco conhecidos fora do país e que têm participado em encontros no quadro de uma iniciativa a que chamam Filosofia da Revolução Pacifica. “Estes movimentos sociais não têm acesso aos media. A imprensa privada está toda controlada pelo partido no poder”, continua Felizardo Epalanga. “E estes activistas menos conhecidos, estes casos menos mediatizados, são os mais desprotegidos”, disse por telefone Epalanga, responsável da comunicação da Fundação Open Society, em Luanda, mas que falou na qualidade de membro do GAPPA.
Uma acção "bem planeada"
Felizardo Epalanga descreve uma acção policial “praticamente inédita” e “muito bem planeada” pelas forças de segurança que, ao mesmo tempo que detiveram os activistas, apreenderam muito material “em zonas diferentes da cidade e muito distantes entre si”. Entre o material apreendido estarão computadores, material fotográfico, agendas, revistas, documentos e cartões de crédito – não apenas dos activistas, mas também dos seus familiares.
Nelson Pestana, professor da Universidade Católica de Angola, e escritor conhecido pelo nome de Eduardo Bonavena, lembra porém uma acção nos últimos dois ou três anos – não sabe ao certo – em que também uma reunião numa casa de um dos activistas foi bruscamente interrompida por milícias que "invadiram o local e espancaram algumas das pessoas que participavam mas não prenderam ninguém".
"Algumas dessas pessoas passaram perto da morte", lembra, dizendo que esse episódio foi o único deste tipo, antes do que aconteceu neste sábado, em que as pessoas foram detidas ou agredidas em locais de reunião, e não quando estão a tentar manifestar-se nas ruas [como aconteceu frequentemente entre 2011 e 2013]. "Foram lá e assumiram a prisão [das pessoas] publicamente. Falam em flagrante delito, mas não configuram o delito", nota.  Sobre a menor frequência com que os activistas se manifestam nas ruas, diz: "A mobilização para as manifestações continua. O poder é que não deixa que aconteçam."
Nelson Pestana explica que enquanto antes as forças de segurança deixavam que as manifestações começassem e depois as dispersavam, através da intervenção de milícias e da polícia, prendendo alguns manifestantes, agora as forças de segurança não chegam a deixar que os protestos se iniciem.
"Quem aparece como responsável pela operação é a DNIC [Direcção Nacional de Investigação Criminal]. Mas a contra-inteligência enquadra sempre a operação. E sabendo provavelmente que estavam reunidos [no sábado], houve intervenção para os demover de acções futuras", diz Nelson Pestana.
De acordo com a leitura do escritor e académico, esta acção "pode corresponder a uma necessidade do regime de mostrar que está atento à contestação" e de lembrar que "é capaz de reprimir essa contestação". Nelson Pestana associa a recente contestação a José Eduardo dos Santos visível nas redes sociais e em fóruns de discussão ao  "descontentamento" gerado pela visita deste mês do Presidente à China que criou a percepção, junto da opinião pública, de "alienação do património e da própria soberania" de Angola.
Fonte: Público

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